Não tem título que resuma isso aqui
A quem quiser ter um bom dia eu não aconselho a leitura do texto abaixo. É triste, é raivoso, é rancoroso. Mas era tudo o que tinha dentro de mim agora e eu precisava colocar pra fora.

O problema é que não são apenas mágoas antigas. Se fossem apenas estas, eu estaria bem. Sim, estaria. Eu meio que sou uma pessoa rancorosa – sou mesmo – mas eu consigo dar a volta por cima. Acredite, VOCÊ NÃO FOI A ÚNICA PESSOA QUE ME FEZ MAL NA VIDA. Embora, sem sombra de dúvida, tenha sido a que MAIS me fez mal.
Irônico, não é? Seria risível, se não fosse trágico. A pessoa que deveria estar sempre do meu lado, me apoiando, me fazendo feliz, é a pessoa que escolheu ser a crápula da minha vida. Difícil pensar numa ideia pior que essa. Se alguém tiver, por favor, não ponha em prática. Essa aqui já dói pra cacete.
Mas o problema, mesmo, não é APENAS o que você fez no passado. As feridas cicatrizariam se você NÃO FOSSE MAIS VOCÊ. Se você parasse de me tratar diferente da minha irmã, acho. Por que, sabe, eu e minha irmã somos MUITO parecidas. Sei que muito mais do que a senhora gostaria que fosse. As diferenças entre nós são causadas pela senhora mesma. Sabe, o fato dela não ser caseira não se deve apenas a ‘ela gostar de sair’ ou ‘ela ter amigos’. Eu também tenho amigos. Também tinha na idade dela. Eu não era nenhuma leprosa social. Damn, eu fazia TEATRO. Como alguém que faz teatro pode ser uma leprosa social? Mas a senhora e meu pai preferiram me trancar dentro de casa, como um monstro que deve ser escondido. A um certo ponto, eu desisti de pedir pra sair. Dava tanto trabalho conseguir um sim que eu preferia ficar em casa. É como eu disse outro dia no inglês: my parents killed the party person in me. Então se a minha irmã é uma ‘party person’ hoje em dia e eu não, é simplesmente por que aprendi que sair de casa DÁ MUITO TRABALHO.
E desde quando ser uma party person é positivo, afinal de contas? É só uma característica.
Eu acho HILÁRIO essas pessoas que fodem com o seu emocional e depois vem com a conversinha: “VAI PROCURAR UM TERAPEUTA, VOCÊ PRECISA CURAR ISSO”. OH REALLY? Mas me diz aí ALGUMA COISA QUE EU NÃO SAIBA. Eu tinha que curar feridas desde que eu era PEQUENA, sabe? Bem pequena, uns 6 anos, por aí. MAS SERÁ QUE A SENHORA ME DEIXOU CURAR ALGUMA COISA? Oh, not really, right? Me parece que por cima de uma facada a senhora aplicava um novo golpe. E agora as feridas antigas e novas se juntaram aqui e estão fazendo rebelião. Disseram que nem vão tentar se curar mais, por que não tem lógica, se você ainda estiver na minha vida. Eu nem tenho como discordar.
É muito triste tudo isso. Nesse exato momento estou me forçando a não chorar. Afinal, estou escrevendo da minha mesa do trabalho, não ia pegar bem. Eu nem queria escrever isso daqui, mas é algo que está me matando e tem que ser escrito o quanto antes. Essas porção de coisas ditas e não ditas – mais ditas, for sure. Outro dia eu estava na casa de amigos meus e de Weslley e um casal do grupo estava pra casar. A menina em particular falou que a mãe já estava triste por que ela ia embora. Daí a mãe de outra amiga, que estava presente na sala, disse que sentia falta da filha dela o tempo todo. E eu, revoltada com tudo aquilo, falei idiotamente: “Pois a minha tá louca que eu vá embora”. Pois é, que imbecilidade falar isso. Ninguém precisava saber, né? Por sorte, ninguém quis detalhes sórdidos do nosso relacionamento. Ia estragar a noite.
Mas, sabe, não consegui me segurar. Aquelas conversações NÃO FAZEM PARTE DE MIM. Não são parte do meu dia-a-dia. Eu não queria escutar aquilo. Doía demais. Saber que eu nunca vou ter aquilo. Tem como sentir falta de algo que nunca se teve? Parece que sim, no fim das contas. É muito injusto eu, de todas as pessoas do mundo, não ter direito a ter uma mãe. Cacete, WHAT THE HELL I DID TO DESERVE SUCH A HORRIBLE THING? Vai ver fui Hitler na outra vida. Isso explicaria, talvez.
Weslley me falou que eu deveria criar um filtro. Isso é muito ele, mas não parece comigo. Eu, criando um filtro? O QUE É FILTRO, MINHA GENTE? Mas ele insistiu, dizendo que discutir e brigar só piora. Fiquei calada, por que ele realmente parecia acreditar que aquilo daria certo, se eu me dispusesse a por em prática. Mas eu não acredito nem um pouco nesse método. Sabe, mesmo gritando com a minha mãe de duas em duas semanas, a minha garganta ainda está cheia de coisas não-ditas. E, olha, eu não consigo IGNORAR. Eu gostaria. Juro como eu gostaria. Mas dói demais pra ficar calada. É como não gritar enquanto alguém arranca suas tripas. Tem condições? É muita injustiça ter sido tratada do jeito que eu sou, como alguém inferior, sendo que eu NEM AO MENOS sei o que MERDA eu fiz para merecer essa porra de tratamento. Eu entendo muito que meu amor queira que eu ignore. E eu sei que, embora ele não fale, ele se revolta de me vez chegando chorosa no carro dele. Por que eu me revoltaria se fosse o contrário. Quando a gente ama de verdade, não quer que o outro se machuque.
E é por isso que eu digo BULLSHIT que a senhora me ama. Que porra de amor é esse? Talvez a senhora não me queira morta debaixo de um ônibus, mas amar? Vá contar essa história da carochinha pra outro, POR QUE A MIM A SENHORA NÃO ENGANA. Sim, eu sei que é sua tarefa impor limites. Mas, sabe que eu só não sou melhor hoje em dia POR SUA CULPA? Eu poderia ser mais calma. Ser menos rebelde. Mas eu sou nervosa, estressada e tenho problemas com autoridades. Isso não é culpa de quem me mimou, como a senhora vive dizendo. É SUA. Deal with it. Por que eu não sou muito mais mimada que minha irmã, sou? Na verdade, minha irmã É UM ZILHÃO DE VEZES MAIS FRESCA QUE EU. Eu não sei de onde a senhora tirou que eu sou MIMADA. Eu estudo e trabalho, pago minhas contas e lido com meus problemas. Não tem mimo aqui, minha filha. As poucas pessoas que me mimavam a senhora afastou de mim e eu as deixei se afastar, de idiota que eu sou. Por que simplesmente dá trabalho demais explicar que eu não sou algo que a senhora já se esforçou tanto para fazer verdadeiro.
Eu não sou tão ruim assim. Como filha eu devo ser a merda, não discuto. Mas isso eu já deixei de lado, por que não tem como eu ser melhor tendo a senhora como mãe. Mas, apesar disso, eu sempre tiro notas boas, sou o mais responsável que meus 21 anos me permitem ser, não bebo, não fumo e só faço sexo com o cara que será meu marido e pai dos meus filhos. Não tem como eu ser uma decepção de filha. Ou pelo menos não tem como eu ser mais decepcionante que a minha irmã. Somos praticamente a mesma coisa. Só que a senhora trata ela diferente.
Pra vocês verem que não tô de balela. O meu ano de vestibular foi kind of a hell. E uma boa parte por causa da minha mãe que a) me humilhou por que eu não passei no vestibular de primeira mesmo eu tendo estudado num colégio de merda; b) jogou na minha cara que eu estava sugando o sangue do meu pai por que eu ia passar MAIS UM ANO só estudando quando eu deveria estar trabalhando; e c) fazia questão de deixar claro o tempo todo que se eu não passasse NÃO TINHA SEGUNDA CHANCE PRA MIM. Daí vocês tiram que, se eu passei na minha segunda tentativa, NÃO FOI POR CAUSA DO APOIO EMOCIONAL DELA. Daí minha irmã vem e me conta que esse ano ela vai ganhar mesada para não trabalhar. Mesada. Pra não trabalhar. No ano do SEGUNDO VESTIBULAR DELA. Olhei pra ela com cara de YOU’RE KIDDING, RIGHT? Mas não. Era tudo verdade, mesmo. E o pior é que eu nem estou chocada. Eu já esperava por isso, por que foi assim que ela agiu em várias situações comuns a mim e a minha irmã. Ela fode com a minha vida e quando é a vez da minha irmã de fazer o mesmo ELA SIMPLESMENTE AGE CERTO. O que eu sou, afinal de contas? A porra de um rascunho? A filha que deu errado? Vai se foder, você não é retardada. Você simplesmente não gosta de mim.
Eu vou fazer terapia, sim. Mas só quando eu sair da sua casa. Do contrário, é jogar dinheiro fora. E, ah, obrigada por foder com meu emocional. Sempre posso contar com você para isso.
O abraço.
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Retrospectiva literária 2011 




