
A todo momento ela parecia brigar com um outro ser dentro dela. Um ser cheio de uma raiva preta e gosmenta, que nem aquela lama dos pântanos de desenho animado. Esse ser parecia não entender que ela estava no comando. “Deixe-me em paz, inferno”, pensava, enquanto travava lutas mentais contra aquele demônio dentro de si, que estava sempre a empurrando um pouco mais abaixo da montanha do bem-querer, diretinho para o vale da negatividade. Esperava que as pessoas não percebessem isso, mas parecia cada vez mais difícil domar esse monstro dentro dela. Quando menos esperava, ele aparecia, ardendo em chamas de ódio, despejando impropérios e palavras doloridas em quem estava mais próximo e machucando-a por consequência. Sim, por que ela se machucava com aquelas palavras que ela nem sabia como tinham saído de sua boca. Não tinha intenção de fazer mal a ninguém. Não era o que queria. No entanto, lá estava ela, mais uma vez, brigando com alguém querido por causa dessa idiotice sem fim que é ter algo de maligno dentro de si.
Ele estava emburrado, irritado e meio cheio de ser tratado tão agressivamente por qualquer razão. A amava, mas tudo tem limite e essa chateação já estava dando nos nervos fazia um tempo. Olhou para ela e se perguntou onde estava aquela menina doce pela qual se apaixonara. Talvez ela fosse um pouco azeda na época, mas o que acontecera para tudo desandar dessa forma? A menina que amava não se irritava por tudo com essa facilidade. Not a chance.
“Desculpe”, começou ela. Ele levantou os olhos dos cadarços que esteve encarando por severos minutos, como se tivesse pesando as consequências de dar um uso diferente para eles que não o de manter seus pés dentro do tênis. Será que amordaçá-la seria mesmo tão ruim? Levantou uma sobrancelha. “E pelo quê, exatamente?”, perguntou. Não acreditava muito nessas desculpas e ela não poderia culpá-lo. Tinha sido assim nos últimos dias e estava cada vez mais difícil aturar esses ataques bobos dela. Ela desviou o olhar, chateada pelo cinismo que vazou das palavras dele. De qualquer forma, decidiu ser sincera. Se ele estava assim, a culpa era apenas dela, que não conseguia controlar-se. “Por estar sendo assim, horrível. Não sou eu, essa. Você me conhece. Eu não sei o que está acontecendo comigo”, mentiu, achando a situação toda uma tremenda injustiça.
Por que, de todas as pessoas, tinha que ser ela a lidar com esse monstro maldito? Ela estava perdendo o controle, não conseguia se impor. O rancor tomava conta dela e não a deixava respirar, por mais que ela tentasse enfiá-lo num lugar bem escondido e obscuro dentro do seu coração. Mas não adiantava. Fosse qual fosse o recipiente, o rancor vazava. Vazava e envenenava o seu interior. Bem que sempre disseram que não era bom guardar rancor de ninguém. Ela deveria ter escutado. Agora esse câncer se criara dentro dela, sua células intoxicadas de raiva e ela não conseguia resolver esse problema sozinha. Mas também não se sentia confortável para falar sobre ele com ninguém. O que pensariam dela? Tinha ela razões suficiente para viver tão p da vida o tempo todo? Sabia que não. Havia pessoas em situação muito mais desesperadora que a dela e nem por isso elas resolveram que ódio era uma boa ideia. Tinha que se ser muito burro e atrasado na escala espiritual para escolher esse tipo de opção. Qualidades essas que ela estava começando a acreditar que tinha.
A voz dele a acordou dos devaneios. ”Fiz alguma coisa a você? Digo, alguma coisa que realmente tenha te machucado?”, perguntou ele, preocupado. Aquela lá realmente não era ela. Ele não conseguia reconhecer. E se não era ela, o que é que aquele outro ser estava fazendo ali. Pegou na mão dela e a alisou levemente com seus dedos longos. “Sabe”, falou olhando pros seus olhos, “você realmente pode contar comigo. Eu te amo e eu não estou brincando quando digo isso, você sabe”, afirmou, sério. Ela perscrutou seus olhos, procurando provas de que poderia confiar nele. “Não sei se posso dividir esse peso com você”, disse tristemente, olhando por cima do ombro dele. Não queria que a tomasse por louca. Não ele. Não alguém que ela amava tanto. Entretanto, também achava injusto machucá-lo de graça e nem ao menos dar-lhe uma explicação.
“E por que isso? Não estive eu sempre ao teu lado?”, perguntou ele, sem entender. Ela observou-o, triste, se sentindo o ser mais desprezível da face da terra. “Estou me corroendo por dentro, meu amor. Eu estou me matando. Matando o que há de bom em mim”, murmurou, uma lágrima caindo do seu olho esquerdo. O coração dela batia devagar, como que esperando pelas próximas palavras de um romance que já conhecia. Ele se assustou. “O que você quer dizer com isso?”, inquiriu, segurando as duas mãos dela, obrigando-a a olhá-lo de frente. Ela suspirou, o pesar derretido em seus olhos negros e úmidos. “Eu estou corroída pela rancor, meu amor. Não de você, mas de todas as pessoas que já me fizeram algum mal nessa vida”. Outra lágrima caiu, dessa vez correndo pela sua bochecha em direção à sua boca. Continuou. “Não pensei que isso fosse acontecer e sempre me orgulhei de ser uma pessoa que não esquece o que as outras fazem com ela. Sempre achei que era coisa de mosca morta, de gente sem personalidade, passar por cima do que acontece e seguir em frente”. Tomou fôlego. “Mas”, disse, olhando diretamente para os olhos bondosos dele, “descobri que não é bem assim. Passar por cima é necessário. Esquecer é necessário. Do contrário você termina que nem eu, com um monstro de ódio, uma bola gosmenta de rancor dentro de si, destruindo o que tem de bom dentro de você e colocando raiva, intolerância e irritação no lugar”, enumerou. “E agora receio ser tarde demais para me conseguir de volta. Desaprendi a ser boa. Só tenho sentimentos ruins dentro de mim. Não sei”, e precisou parar para tomar fôlego e completar a frase,”se te mereço mais. Certamente, não devo mais te merecer. Não sendo a pessoa odiosa que venho sendo”, admitiu, olhando para o chão e engolindo lágrimas salgadas de decepção consigo mesma.
Ele enxugou suas lágrimas e levantou o seu rosto com delicadeza. Não era bem aquilo que esperava, mas estava disposto a tomar como sua a tarefa. O queixo dela tremia, os olhos estavam vermelhos e ela toda parecia vibrar numa aura de tristeza e arrependimento. Ele não a deixaria desamparada. “Não podemos mudar o passado”, começou ele, acariciando a bochecha rosada dela, “mas podemos fazer um futuro diferente. Nunca é tarde e, se não houvesse nada de bom em você, você não estaria tão triste assim”, argumentou, procurando os olhos dela. “Acredite em mim, enquanto houver um pedacinho de bondade em você, há esperança”.
Nesse momento, o pedacinho de bondade nela, o amor que sentia por ele, brilhou dentro do seu peito, e ela se sentiu mais leve. Tavez ainda houvesse uma forma. Com ele ao seu lado. O peso é difícil de carregar, mas dividido por dois é certamente mais tolerável. Sorriu. “Talvez. Mas como farei para me livrar de todo esse mal que habita em mim?”, perguntou, preocupada. “Como farei para ser uma pessoa melhor, quando tenho vontade de bater em qualquer um que pisa no meu pé ou me contraria de alguma forma?”. Ele sorriu. “Paciência, amor. Bondade é uma consequência, não um bem imediato. Você terá que plantar o bem onde semeou a raiva e o rancor”, falou, apontando pro coração dela, “e terá que ter paciência e cuidado com esse sentimento, para que ele cresça forte. Uma vez que ele crescer, ninguém poderá tirá-lo de você”. Sorriu de novo. “E você deve parar de alimentar raiva. Não traz nada de bom”. Ela o abraçou, forte, como que fechando o acordo que eles tinham se proposto. O coração dela já batia num ritmo diferente. Uma luz já raiava dentro de si, iluminando seu olhar e fazendo-a lembrar um pouco mais do que ela era antes. Quem disse que o primeiro passo não era importante? Decidir mudar pra melhor é algo que pouca gente se propõe a fazer e lá estava ela, no começo do que acreditava ser uma longa estrada para uma vida satisfatória. Não seria fácil, decerto. Mas seria mais gratificante do que guardar toda aquela mágoa que ela havia armazenado dentro de si. Estava na hora de limpar os armários e lavar o seu interior com água, sabão e cloro.
“Ah, então você vai se transformar numa bunda-mole, é isso mesmo, minha querida?”, indagou a sua besta, debochada, impregnando o ar com seu veneno. Ela lançou um olhar risonho para o monstro e respondeu. “Não, meu caro. Vou me tornar uma pessoa feliz”. E jogou água, sabão e cloro. A faxina havia começado.
Perdoem o escrito bobo, me deu vontade de escrevê-lo e foi isso que eu fiz. (: